Déjà vu? Fake news existiam no Império e causavam pânico por conta das vacinas

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Em pleno 2019, ainda existe um alto nível de desinformação sobre as vacinas. Muitas pessoas acabam se deixando levar por informações falsas sobre o tema, deixando de vacinar seus filhos ou até a si próprio por conta de notícias ou boatos infundados. Para se ter uma ideia do que isso pode causar, o Brasil acaba de perder o certificado de país livre do sarampo. Depois de passar quase duas décadas registrando alguns poucos casos importados da doença, nosso país contabiliza neste ano 5,4 mil doentes e seis mortos. Uma das razões da volta do sarampo, segundo especialistas, é a desinformação dos pais, que têm caído em fake news que acusam a vacina de ser perigosa para a saúde dos filhos. Dos seis mortos, quatro eram bebês que não haviam sido vacinados.

Como forma de alertar a população sobre isso, o Senado Federal divulgou informações do seu acervo histórico para ilustrar como as notícias falsas afetaram o Brasil — e campanhas de vacinação — em um tempo em que as mensagens não eram tão rápidas como hoje.

“Em Santa Catarina, têm morrido para cima de 2 mil pessoas. Eu estabeleci ali a vacina, deixando-a encarregada a um cirurgião hábil, mas quase ninguém compareceu. Os povos estão no erro de que a vacina não faz efeito. Quando o interesse público não se identifica com o interesse particular, nada se consegue”, discursou em 1826 o senador João Rodrigues de Carvalho (CE), citando a província da qual fora presidente (governador).

Por causa das bolhas cheias que se espalhavam pelo corpo do infectado, a varíola, doença em questão abordada pelo senador, era popularmente chamada de “bexigas”. Mesmo nos casos em que a doença não era letal, os “bexiguentos” sobreviventes pouco comemoravam. Depois de secar e cair, as bolhas costumavam deixar cicatrizes profundas que deformavam o rosto para sempre.

“As bexigas são um dos maiores flagelos que devastam a humanidade. Na minha província, foram tantas as mortes que o arraial da Passagem ficou reduzido à metade. Isso não pode ser senão por desleixo, ao menos depois de haver um específico [a vacina] tão seguro”, afirmou, também em 1826, o senador Antônio Gonçalves Gomide (MG)

Os senadores Carvalho e Gomide trataram da varíola durante as discussões, no Plenário do Senado, de um projeto de lei que autorizaria o governo a remanejar verbas do Orçamento para a vacinação, de modo a “vulgarizar a prática em todo o Império”. Mais especificamente, o dinheiro custearia as gratificações dos médicos vacinadores. Os senadores e os deputados, entendendo que o problema era mesmo grave, aprovaram a liberação das verbas.

A vacina era uma grande novidade. Em 1796, na Inglaterra, o médico Edward Jenner observou que os camponeses que ordenhavam vacas infectadas e contraíam a varíola bovina — uma variação inofensiva da doença — por alguma razão passaram ilesos pelos surtos de varíola humana. Para verificar se não se tratava de mera coincidência, ele decidiu retirar o pus das bolhas localizadas nas mamas das vacas doentes e inoculá-lo em cobaias humanas. O experimento teve o resultado imaginado. Jenner, assim, comprovou o poder protetor do pus infectado com a varíola animal.

O médico inglês batizou o pus terapêutico de “vacina”, uma derivação da palavra latina vacca. Na época, bastava dizer “vacina”, sem especificar a doença. Por muito tempo, a varíola foi a única enfermidade contra a qual existiu imunização. No entanto, parte da população brasileira, sem entender como a vacina funcionava, tinha pânico dessa novidade médica. Um dos medos era que a imunização, em vez de evitar, desencadeasse a varíola e levasse à morte. Reforçava esse temor o fato de o vacinado desenvolver uma bolha, ainda que superficial e inofensiva, no local da inoculação. Outro medo era que o pus de origem animal transmitisse doenças bovinas para as pessoas.

Charge inglesa que demonizava a vacina, com pessoas virando vacas. As fake news não afetavam somente os brasileiros/ Imagem: Biblioteca Nacional

Edward Jenner fez sua descoberta a partir de meras observações empíricas. Na falta de uma explicação científica plausível, muitos médicos condenavam a imunização. Entre eles, estava o português Heliodoro Carneiro, que em 1808 publicou um livro repleto de ataques à vacina. A obra, lançada em Lisboa, ajudou a disseminar o medo na Colônia.

Há relatos de mães que escondiam os filhos debaixo da cama ao ouvir o vacinador bater à porta e até de famílias inteiras que fugiam do povoado quando a campanha de vacinação chegava. Inclusive entre os senadores se encontrava desinformação.

Não se pode dizer, no entanto, que o medo da população era de todo absurdo. Na época, a ciência era incapaz de explicar como a vacina protegia as pessoas. Desconheciam-se os vírus e o sistema imunológico. Não se sabia que, ao introduzir um vírus enfraquecido no organismo, a própria pessoa passava a produzir anticorpos contra a doença.

Além disso, as mentiras eram contadas deliberadamente. Na vila de Paracatu (MG), em 1832, o anúncio de uma campanha de vacinação fez a população apedrejar a casa do presidente da Câmara Municipal (cargo hoje equivalente ao de prefeito) e quase linchá-lo. Essa pequena revolta da vacina estourou depois que bilhetes e folhetos anônimos começaram a circular na vila avisando que a verdadeira intenção do político era infectar e matar todo mundo. Mais tarde, descobriu-se que as notícias falsas haviam partido do juiz de Paracatu, que era inimigo declarado do presidente da Câmara Municipal.

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As fake news continuavam mesmo após decretos como o de Dom Pedro II, que, em resposta à resistência da população, em 1846, tornou a vacinação obrigatória para todos os súditos. A norma também estabelecia que só poderia ser matriculado nos colégios e admitido no serviço público quem estivesse com a vacinação em dia. Como não eram tantos assim as crianças e adolescentes que estudavam e os adultos que trabalhavam para o Governo, o decreto foi solenemente ignorado pela maioria da população.

Livro português que ajudava a espalhar informações falsas sobre a vacina/ Imagem: Biblioteca Nacional

Por isso, em 1871, o senador Cruz Jobim apresentou um projeto de lei que previa uma multa de 200 mil réis para o chefe de família que deixasse de vacinar seus filhos e escravos. Toda pessoa que morresse de varíola teria o corpo examinado, para saber se havia a marca da vacina. O Rio de Janeiro já tinha uma lei local parecida, que tampouco era executada. O projeto, no entanto, não fora aprovado e a varíola continuaria matando brasileiros por mais um século.

Antes de se mudar para o Brasil, Dom João VI fez seus filhos serem vacinados em público, justamente para dissipar o temor dos súditos portugueses e convencê-los de que era infundada a história de que a vacina provocava as bexigas. O príncipe regente se engajou porque conhecia bem a devastação da varíola. Ele havia perdido dois irmãos, um genro e um filho para a doença. Sua mulher, dona Carlota Joaquina, era uma sobrevivente e carregava cicatrizes no rosto — o que ajuda a explicar a fama de feia.

Por essa razão, em 1811, apenas três anos depois de transferir a sede do Império português para o Brasil, Dom João VI criou a Junta de Instituição Vacínica da Corte, destinada a executar a imunização em massa no Rio de Janeiro e a enviar a vacina para as províncias. A nova repartição pública também importava de Londres o pus animal. O material não podia ser extraído das vacas brasileiras porque elas, ao contrário das inglesas, não sofriam da varíola bovina.

Edward Jenner havia ido ainda mais longe nas suas descobertas. Ele percebeu que a bolha benigna que se formava no braço da pessoa após a vacinação também continha o pus protetor contra a varíola. Assim, cada indivíduo vacinado naturalmente se tornava produtor da vacina. Oito dias depois da imunização, a pessoa tinha que se apresentar novamente ao vacinador, para que ele estourasse a sua bolha e inoculasse esse pus em outras pessoas. O processo se chamava vacinação braço a braço.

E foi no “braço a braço” que a vacina contra a varíola chegou ao Brasil pela primeira vez no ano de 1804. O Marquês de Barbacena (que mais tarde se tornaria senador) mandou para Lisboa sete escravos meninos acompanhados de um médico, que aprenderia na capital portuguesa a técnica da vacinação. Apenas uma das crianças foi vacinada em Lisboa. Durante a longa viagem de volta, em navio, o médico passou o pus vacínico de um escravo para outro a cada oito dias. Assim que o navio aportou em Salvador, o Marquês de Barbacena foi a primeira pessoa a ser imunizada no território brasileiro.

A reapresentação oito dias depois era importante não só para obter mais pus vacínico, mas também para verificar se a pessoa havia mesmo sido imunizada. A ausência de bolha no braço era sinal de que o vírus não fora inoculado adequadamente e o indivíduo não estava protegido, o que exigia uma nova aplicação da vacina.

O problema é que muita gente simplesmente não voltava ao vacinador, fosse pelos mitos em torno da vacina, fosse pelo incômodo da aplicação, fosse por pura negligência. Como consequência do não retorno no oitavo dia, pessoas que acreditavam estar imunizadas acabavam mais tarde sendo pegas pela varíola. Esses contágios inesperados reforçavam a perigosa crença popular de que a vacina não servia para nada ou provocava a própria enfermidade.

Na década de 1960, a Organização Mundial da Saúde (OMS) iniciou uma campanha internacional de erradicação por meio da vacinação em massa. No Brasil, o último caso foi registrado em 1971. Em 1980, a OMS declarou que o mundo estava finalmente livre da doença e a vacina deixou de ser aplicada. Entre 1900 e 1979, a varíola matou 300 milhões de pessoas em todo o planeta.

O historiador Fillipe dos Santos Portugal faz uma comparação entre as epidemias de varíola no Império e o ressurgimento do sarampo com força total no Brasil de hoje:

“Os dois casos mostram que a negligência do brasileiro em relação às vacinas é histórica. No entanto, na minha avaliação, a situação atual é mais preocupante. No passado, os baixos índices de vacinação eram até compreensíveis, pois de fato faltava conhecimento científico. Hoje, quando a ciência dá explicações bastante convincentes, a negligência se tornou indesculpável”.

Por isso é importante sempre buscar a informação correta e não se deixar levar por boatos infundados na internet. A vacinação é importante não apenas em casos epidêmicos, mas também para garantir que doenças não retornem no futuro.

Fonte: Canaltech