Drauzio Varella e Bárbara Paz se emocionam ao relembrar últimos momentos ao lado de Hector Babenco

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O Conversa com Bial desta terça-feira, 8/10, recebeu dois ilustres convidados: a atriz, produtora e diretora Bárbara Paz , e o médico e escritor Drauzio Varella . Em comum, a proximidade com o diretor Hector Babenco , falecido em 2016. No programa, a dupla homenageou e se emocionou ao contar histórias de vida ao lado do homem responsável por filmes como “Pixote, a lei do mais fraco” , “O Beijo da Mulher Aranha” e “Carandiru” .

O mote da conversa foi o lançamento do livro “Mr. Babenco – Solilóquio a dois sem um” e do documentário “Babenco – Alguém tem que ouvir o coração dizer: Parou”, que será exibido na mostra de cinema de São Paulo, em uma sessão de gala no Teatro Municipal.

Três anos atrás, Bárbara e Drauzio viveram a perda do diretor que lutou 30 anos contra o câncer. A atriz registrou um depoimento do médico no curta-metragem “Conversa com Ele”. No palco, eles se emocionaram revendo o vídeo e comentaram sobre as gravações.

“O teto da felicidade, o nível da felicidade que você tinha fica um pouco mais baixo. Você não atinge mais aquele estado. Você não substitui um grande amigo por outro, mesmo que você tenha mais de 50”, afirmou Varella.

Bárbara Paz, viúva do diretor, contou um pouco sobre o filme. Ela revelou para Pedro Bial que precisava retratar o amor e o marido:

“Eu acho que a conclusão é que o feitio desse filme é um filme amor. É um filme que eu precisava retratar esse homem. Eu precisava congelar esse homem rapidamente, não só para mim, mas para todos e dessa forma com meu olhar”.

A atriz se recordou como conheceu o diretor pessoalmente e revelou acreditar que suas histórias de vida foram fundamentais para a aproximação de ambos. Ela perdeu os pais muito cedo e aos 17 anos quase morreu em um acidente de carro. Babenco estava em uma longa batalha contra o câncer.

“Conheci ele na Flip, no Festival de Literatura de Paraty, ele contando histórias de que ele era figurante e que com 17 anos ele viajou o mundo, desbravando e fumando o charuto dele e tomando o vinho dele, e uma turma de pessoas ao lado dele, e eu fiquei fascinada por aquele homem”.

“Acho que onde a gente se encontrou, onde a gente se juntou, dois sobreviventes, um pouco o espelho do outro porque eu tenho uma alma velha e me sentia muito mais velha do que eu sou.”

“Ele já era um homem de idade, muito sofrido, com o corpo muito machucado, mas tinha uma juventude. Era um menino, ele se via ainda, então, a gente trocou, a gente se juntou, teve uma conexão de vida mesmo. De sobrevida para ambos. Para mim, que estava um pouco cansada, e para ele um pouquinho mais de felicidade.”

“A Bárbara foi sensacional na vida dele. Veio em um momento muito duro da doença dele”, explicou o médico.

O escritor também contou que conheceu Hector em 1984. Naquele momento, o diretor estava com um linfoma, um tumor maligno, e um amigo em comum os fez paciente e médico, algo que evoluiu para uma grande amizade.

“Foi uma relação que foi se montando. Ficamos íntimos cada vez mais e no fim nós éramos como irmãos mesmo porque ele teve um longo percurso com essa doença.”

“Eles tinham uma amizade, era tão bonita, tão forte. Eu sempre via o Drauzio como um anjo azul que permanecia ali pertinho porque se o Hector teve essa sobrevida, não foi por minha causa. Se teve alguém, é esse moço aqui!”, citou Bárbara.

A descoberta do câncer coincidiu com um momento de grande consagração para o diretor. Babenco foi o primeiro cineasta latino-americano a concorrer ao Oscar de melhor diretor por “O Beijo da Mulher Aranha”. Hector não ganhou o prêmio, mas o momento está presente no documentário de Bárbara.

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“Esse é 100% porque no filme a gente não consegue colocar tudo, então, no filme, é um retrato, é um poema visual. O livro é 100% do que ele me deu. O que ele queria deixar registrado antes de partir. Passa pela infância, pelos filmes, pelo fim”, revelou a diretora.

Varella também contou a Bial que por algumas vezes acreditou que Hector não resistiria muito tempo ao câncer, mas que o amigo o provou que estava enganado. Ele comentou que o amigo nunca fez da doença sua identidade:

“Acho que o exemplo mais forte que ele deu foi do cara que não deixa se abater. Mesmo diante da adversidade”.

“Dobrei ele. Eu também sou uma leoa. Também não sou fácil e por isso o embate da gente. Eu não ficava quieta, não calava a boca. Ele continuava dirigindo a doença porque eu acho que foi isso que manteve ele vivo”, lembrou Bárbara.

Ao ser questionado sobre a cena que considerava mais marcante da obra de Babenco, Drauzio relembrou “Carandiru”.

“Eu não era escritor, o Carandiru foi o primeiro livro que eu escrevi. Para mim, a cena mais forte, mais impressionante, é a cena do filme com o cachorro na galeria”.

“Foi uma cena casual, eles estavam filmando, de repente aparece aquele cachorro da polícia e do um gato do outro lado. Coisa inesquecível. Aliás, o filme Carandiru tem muitas cenas inesquecíveis”.

Judeu nascido na Argentina com carreira consolidada no Brasil, Hector se naturalizou brasileiro. Na conversa, Bial relembrou uma fala de um dos filmes de Babenco onde ele dizia que “o exílio é um estado de espírito”. Bárbara comentou a situação:

“Ele falava que não tinha raiz. Essa falta de raiz de identidade própria, porque ele saiu da Argentina para o Brasil, morou 42 anos aqui, e ninguém achava ele brasileiro aqui. Ele tinha uma briga interna com ele mesmo. De quem ele era, dessa falta de raiz”.

A atriz também revelou para o apresentador que o cinema foi um dos motivos para que Babenco lutasse pela vida:

“Foi o cinema que manteve ele vivo porque ele só ficou vivo para continuar fazendo filmes. Isso é real! Essa era a beleza que eu queria retratar no filme”.

Bárbara relembrou o discurso feito após ganhar a mostra “Venice Classics” no Festival de Veneza, pelo filme que fez em homenagem ao marido. A diretora contou que sentiu que aquele momento era uma oportunidade de falar algo sobre o Brasil:

“Naquele dia, estava sendo censurado na Bienal do Livro, a história em quadrinho censurada pelo Prefeito do Rio de Janeiro (…) Isso era um absurdo. Era uma coisa assim: ‘Como estou naquele lugar, com a voz e não vou falar do meu país?’.”

“Eu não tenho um discurso pronto. Eu não sou uma pessoa que tem uma lábia boa para falar sobre isso, mas algo eu tinha que fazer e falar naquele momento e foi o que veio”.

Questionados por Bial, Drauzio ainda contou que sente falta da inquietude intelectual do amigo. Bárbara disse que jamais poderá esquecer o diretor:

Fonte: gshow