Marcão puxa bandeira de técnicos negros e projeta reencontro com Abel Braga: “Não pode aliviar”

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Marcão teve boa estreia como técnico efetivado do Fluminense e venceu o clássico contra o Botafogo no último domingo, mas sabe que ainda tem um longo caminho a percorrer no sentido de livrar o time do rebaixamento – e, quem sabe, almejar algo maior no Brasileirão? Para isso, vai enfrentar na próxima quarta-feira o Cruzeiro, no Mineirão. Será o reencontro com Abel Braga, pessoa de suma importância para a carreira do ex-volante.

Abel e Marcão trabalharam juntos no Fluminense campeão carioca de 2005 e preservam, desde então, uma amizade que transcende o campo de futebol.

– Minha relação com o Abel é muito próxima. Não só dentro de campo, tivemos períodos importantes de sair junto, de amigo mesmo, de amizade. Eu tenho um carinho e um respeito muito grande pelo que ele fez dentro do clube. É um momento importante. Não queria encontrar dessa maneira, mas é um jogo grande. Vai ter que ser dessa forma. Tenho total respeito, mas vou de uma forma muito positiva para ver se tiro pontos importantes do mestre – conta o técnico do Fluminense, que completa:

“Não pode aliviar (risos). Vamos tentar fazer um jogo difícil e trazer pontos importantes para o Rio de Janeiro”.

Em entrevista exclusiva ao Globo Esporte, Marcão também tocou num ponto importante: a representatividade dos negros no cargo de treinador de futebol. No momento, na Série A do Brasileirão, ele e Roger Machado, do Bahia, são os únicos negros no comando.

– A gente tem pessoas próximas, amigos, que abraçaram a causa. Eles estão felizes, mandaram mensagem. “Marcão, é bom te ver aí, você está representando a classe”. Eu fico muito feliz por isso, eu estou representando uma classe muito forte, muito unida. Eu vejo o Roger, vi o Cristóvão, o Jair. Hoje é sempre muito positivo ver o Marcão representando, e amanhã vai ter mais dois, depois mais dois. E eu vou puxar, vou chamar nossa classe, chamar eles para perto. É uma causa importante. Não tenho dúvida nenhuma que, daqui a pouco, o Jair está aí de novo, o Cristóvão. São pessoas que representam – acredita ele.

Cruzeiro e Fluminense se enfrentam nesta quarta-feira, às 21h30 (de Brasília), no Mineirão, pela 24ª rodada do Campeonato Brasileiro.

Para ser bem sincero, estou bem feliz de poder ajudar, poder participar, poder viver esse momento com nossos guerreiros, com nossa torcida. Estou pensando jogo a jogo. Para ser mais sincero ainda, não estou pensando na pessoa Marcão. Estou aqui, sou funcionário do clube. E vai ser assim até o final. Com sinceridade, esse não é o momento do Marcão, esse é o momento do Fluminense. De sair dessa situação que tanto nos incomoda, e eu espero poder contribuir da melhor maneira possível

Exatamente isso. Pelo carinho que a gente tem pela instituição, por esse escudo, a gente tem a obrigação de estar aqui no dia a dia pensando no que a gente for fazer durante esse período comandando esse time de guerreiros.

O Fluminense tem um DNA que trabalhou durante oito meses com o Fernando (Diniz) de uma forma, depois veio o Oswaldo. Desse jogo do Fernando, ele tentou adaptar algumas coisas. As duas situações, no meio do caminho, não deram certo. A gente perdeu o Fernando, perdeu o professor Oswaldo. A maneira Marcão é tentar equilibrar esses dois grandes treinadores e tentar fazer um Fluminense muito forte.

Pelo tempo que a gente está aqui, o que a gente trabalhou com o Fernando e com o Oswaldo, a gente entendeu a maneira que o Fluminense tem que jogar. No meu entendimento, o Fluminense hoje é uma equipe de posse de bola, eles estão felizes assim. Minha equipe é muito corajosa para jogar dessa forma. E eu não vou tirar essa maneira de jogo deles. A gente tem que tentar agora colocar uma ideia nova em relação à proteção, a gente treinou isso. Eles souberam sofrer no momento em que o Botafogo atacou. Isso foi treinado, foi muito bem realizado. No final acabou dando certo. É isso que a gente vai tentar equilibrar. A ousadia de jogo, mas, na hora que formos atacados, temos que saber nos defender.

A gente tem que tentar contribuir de alguma forma. Você vive o jogo. Tem que tentar gritar, estimular da melhor maneira possível a nossa maneira de jogo. A gente jogava dessa forma, tentando passar alguma coisa para o companheiro. E na beira do jogo tem que participar também. Tem que dosar um pouco, o quarto árbitro chega ali e conduz da melhor forma. Eu digo: “Não, tudo bem, na próxima eu maneiro”. É importante o atleta vir na beirada do campo e você participar do jogo. Esse é o Marcão, é a minha maneira de jogar, de contribuir.

Eu jogo junto. Sempre que possível, vou tentar controlar da melhor maneira nosso impulso para não passar do limite com a arbitragem e ajudar nossos guerreiros no campo.

A gente tem essas pessoas trabalhando diretamente no campo, pessoas que, sempre que a gente precisa, eles estão atentos a tudo, passando informações de tudo. Hoje você não faz nada sozinho. Se você não tiver uma retaguarda bem forte e firme, fechada com você, acho que você não consegue êxito em nada. Essas pessoas têm nos ajudado bastante.

Naquele momento foi bem claro, eu senti muito porque eu tenho muita identificação. Eu entendo também que foi uma questão política, porque todos sabiam que eu tenho uma relação de amizade com o presidente. Mesmo naquele momento eu não tendo me posicionado, porque não poderia já que eu estava trabalhando no clube. Não me envolvi politicamente, mas algumas pessoas levaram isso para o lado política. Então minha saída foi uma questão mais política. Eu entendi todas as razões, mas sempre soube que voltaria. Saí de coração aberto, saí bem, continuei trabalhando. Buscando melhorar cada vez mais, estudando, fazendo algumas viagens. Eu sabia que, se o Fluminense precisasse de novo, Marcão ia estar melhor preparado, melhor organizado. Foi o que acabou acontecendo, até mais rápido do que eu imaginava. Eu tinha uma projeção de estar no clube por bastante tempo, de ajudar nos que for possível os treinadores que aqui estão. Hoje o Fluminense precisou que eu estivesse à frente no comando. E eu vou fazer da melhor maneira possível. Mas tudo que eu estudei, que eu trabalhei foi respaldado em cima disso. Hoje para trabalhar no Fluminense tem que estar muito bem organizado, tem que estar preparado. A nova gestão fez questão de nos colocar isso. O Mário e o Celso antes de me colocarem aqui conversaram comigo para saber se eu estava realmente preparado para assumir esse cargo no clube.

Eu estudei bastante, fiz algumas viagens, passei algum tempo na Inglaterra, estive na Holanda, na França, na Espanha. Vi jogos importantes, da Liga Inglesa. Passei três semanas viajando pela Europa para acompanhar essas grandes equipes, modelos de jogo. Eu gosto muito de ver, tenho que estar muito bem antenado em tudo que está acontecendo no mundo. Para que, quando for preciso, eu possa contribuir. Até porque, hoje no Fluminense, você tem jogadores de alto nível. Tem o Ganso que veio de fora, tem o Allan, o Caio… Você tem que estar atento a tudo para passar informações. É importante para esses jogadores com nível de excelência de jogo, por isso foi importante esse preparo fora. Eu vejo muito jogo aqui também, Série C, Série B.

É uma confusão em casa. Ontem acabou o jogo, a gente para para jantar um pouquinho, organizar, conversa com a patroa. Aí daqui a pouco: “Amor, tenho que ir lá em cima porque tem um joguinho para ver” (risos). Não tem jeito. Mas ela já se acostumou, já colocou minha TV lá em cima. Já fica longe, ela já tem o espaço dela, me tirou do quarto (risos). Mas é assim mesmo, a gente faz com prazer. Você vê alguma coisa nova, alguma coisa diferente, e quer fazer também. Os detalhes hoje têm feito diferença.

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Eu gosto muito do Tite, do modelo de jogo dele. Eu presto atenção em tudo, é um cara muito centrado, muito organizado É muito atento em todos os detalhes. Eu tive um aprendizado com todos esse treinadores que tive oportunidade de trabalhar. Oswaldo, Fernando… São conceitos diferentes de jogo. Para mim, acrescentou bastante na ideia de jogo. Eu pego um pouquinho daqui, dali, e formo uma opinião importante.

Minha relação com o Abel é muito próxima. Não só dentro de campo, tivemos períodos importantes de sair junto, de amigo mesmo, de amizade. Eu tenho um carinho e um respeito muito grande pelo que ele fez dentro do clube. É um momento importante. Não queria encontrar dessa maneira, mas é um jogo grande. Vai ter que ser dessa forma. Tenho total respeito, mas vou de uma forma muito positiva para ver se tiro pontos importantes do mestre.

O Abel conduz muito bem o grupo, ele tem o grupo na mão. É um cara muito amigo, na hora de chamar atenção, ele chama. Mas na hora de abraçar, ele abraça. Ele tem controle total do grupo que tem em mãos. Isso ele faz como ninguém. São pessoas que a gente realmente tem que tirar exemplos.

Uma passagem importante extracampo. A gente foi visitar um menino que estava doente. fomos eu e Abel. O menino tinha leucemia. E a maior felicidade nossa depois foi encontrar esse menino, anos depois, andando no shopping. Fico muito feliz por isso. Foi um momento importante, os pais falaram que, depois da visita, o menino teve uma reação absurda. E dentro de campo, a gente passou um momento importante, que o Abel lançou o Marcão líbero, nosso time jogava com os alas muito à frente. Juan de um lado e Gabrielzinho do outro. Tonhão (Antonio Carlos, zagueiro), (Fabiano) Éller. E o Abel me colocou de líbero. Na hora de defender, eu fazia a parte defensiva. E na hora de atacar, eu saía para jogar. Então ficou muito marcado. Por isso que eu falo, ver os jogos, acompanhar é importante. Mas as coisas já foram feitas lá atrás. Fomos campeões, tivemos momento de levantar a taça, tenho até hoje lá em casa uma foto com ele levantando a taça na churrascaria. Foi muito intenso, e eu guardo com muito carinho.

Não pode (aliviar). Vamos tentar fazer um jogo difícil e trazer pontos importantes para o Rio de Janeiro.

Na verdade, é tentar colocar todo mundo para o jogo. Se você está aqui no Fluminense, você tem totais condições de, em algum momento, jogar e ser titular. Eu não tenho problema nenhum. Tenho que escolher quem for iniciar o jogo, mas se está no banco, se está no contexto, não tenho problema nenhum em pegar um menino da base de Xerém, de vir para o jogo. Se está aqui, é porque foi avaliado por grandes profissionais. Essa é a mensagem que eu quero passar para os meus atletas. Que todos tem totais condições de atuar dentro do elenco.

Eu tento da melhor maneira transmitir essa alegria, essa felicidade do dia a dia, de estar trabalhando num grande clube. Numa instituição fantástica como o Fluminense. Mas tem a hora do jogo, do compromisso, da seriedade. Temos que equilibrar isso para não passar do ponto. Mas estou feliz no dia a dia, estou aqui, estou num grande clube, que eu respeito. Tenho um carinho enorme do torcedor. Mas tem o momento também de suar a cobrança, a coisa mais séria. Mas nesses anos de profissionalismo eu aprendi a equilibrar bem.

O quarto árbitro veio falar comigo: “Poxa, passou um pouquinho do tempo”. Eu: “Desculpa, professor, na próxima eu tento equilibrar” (risos). Saiu um pouquinho o Marcão do sorriso e entrou o Marcão mais duro, mais sério. Mas vamos equilibrar isso para os próximos jogos.

A gente tem pessoas próximas, amigos, que abraçaram a causa. Eles estão felizes, mandaram mensagem. “Marcão, é bom te ver aí, você está representando a classe”. Eu fico muito feliz por isso, eu estou representando uma classe muito forte, muito unida. Eu vejo o Roger, vi o Cristóvão, o Jair. Hoje é sempre muito positivo ver o Marcão representando, e amanhã vai ter mais dois, depois mais dois. Acredito na capacidade, se preparar para ter oportunidade de estar aqui. Minha vida toda no Fluminense foi feita dessa forma. Cheguei num clube em que eu me preparei, me especializei, me capacitei, tive oportunidade e hoje estou sentado num banco importante. E eu vou puxar, vou chamar nossa classe, chamar eles para perto. É uma causa importante. Não tenho dúvida nenhuma que, daqui a pouco, o Jair está aí de novo, o Cristóvão. São pessoas que representam.

Eu nunca passei por isso, mas tive amigos próximos que passaram situações de preconceito. Eu nunca passei na minha carreira, em todas as situações. Meu filho já passou. Trabalhamos no Sul e tivemos um problema muito sério, que foi resolvido. Então sabemos que tem, que existe. Tento levar da melhor maneira possível. Vejo faculdade e tudo que é criado em relação ao negro. Vi a entrevista do Tinga, mandou uma mensagem muito forte. Hoje o Marcão está numa posição importante, vou abraçar como deve ser. Sou negro, tenho que representar da melhor maneira possível. Mas acredito que as pessoas que estão nessa posição podem contribuir. É falar sobre o assunto, é estar junto, chamar outro amigo, valorizar mesmo. É importante a gente falar sobre isso. O Marcão está disposto a falar sobre isso.

Tem o pessoa da Cufa, da Taça das Favelas, que falam muito sobre a causa. Eu participo muito com eles. Eles abraçam a causa. E sempre que precisam do Marcão, estou lá participando dos eventos. Temos que tentar quebrar um pouco essa barreira. Não era para ter diferença. Estar falando sobre isso é muito pequeno, mas é uma causa muito importante. Digo pequeno porque é uma ciosa que não era para ser, mas a causa é enorme. Isso tem que ser levado muito a sério.

Eu encontro os caras aqui agora. “Marcão, tirei foto contigo”. Os caras estão tudo desse tamanho (risos). Legal, cara. Coisa boa. Estou feliz, você vê que ele guardou com muito carinho. Hoje temos respeito e admiração pelo jogo do Daniel, por ele não ter baixado nunca. E ele fez duas grandes partidas. Que mensagem legal”.

A gente entendeu que, pelo jogo, pela proposta que queria implementar, o Daniel seria muito importante. Ele entrou e fez o que a gente imaginava. É um jogo apoiado, o percentual de passe dele é muito importante. É o que a gente queria no momento. Pela nossa posse, pelo setor do campo, ele era o cara para aquele momento. Vamos continuar nessa evolução.

Fonte: globoesporte.com